Ontem

Por: Taiani Mendes

Não costumo esquecer os momentos em que pessoas marcantes entraram em minha vida. Irene, no entanto, é uma incógnita. Não sei o ano, o mês, o dia ou a hora em que ela chegou. Desde que penso ela simplesmente está lá. Adoravelmente fugidia.

Reza a lenda que no momento em que chegou Irene logo avisou que não era de se fixar. Tinha afazeres em vários outros lugares e não sabia até quando poderia ficar. Isso não diminuiu a empolgação da comunidade, que há tanto esperava sua vinda.

Alugou uma casa bem no meio do morro. Apesar dos compromissos nunca deixava ninguém na mão. Ia a todas as festas. Avisava de suas saídas com antecedência, tentando sempre escolher um horário que não atrapalhasse ninguém. Ocasionalmente sumia sem avisar, mas rapidamente voltava quando menos esperávamos.

Não exigíamos exclusividade. Pelo contrário, o ideal seria que todos desfrutassem da companhia de Irene. Incorporamos tão rápido sua presença acalentadora que por vezes até esquecíamos como era vida antes dela… Mas bastou uma noite para que lembrássemos.

Irene nunca tinha passado a noite fora. Já no meio da tarde surgiu o boato de que ela não voltaria mais. Sem explicação, sem despedida. Casa vazia. Não sabíamos o que fazer. Como viver sem Irene? Seguindo seu exemplo alguns foram embora apenas com a roupa do corpo. Foram procurá-la onde quer que estivesse.

A vida não era mais possível sem Irene por perto. Muitos queriam ir também, mas não tiveram coragem, não tiveram dinheiro, não tiveram força, não tiveram oportunidade. Outros preferiram acreditar que ela voltaria logo.

Havia vida antes de Irene, era só uma questão de voltar ao estágio anterior. Conscientemente não conhecia o antes. Lembrei. O desespero me tomou. Fazia parte do grupo dos que desejavam ir ao encontro dela. Fui contida por meus pais. Eles viveram muitos anos sem Irene, estavam – por mais doloroso que isso possa parecer – “acostumados” com sua ausência. Eu não.

Durante a maior parte de minha vida ela esteve por perto. Não sabia viver sem Irene. Não conseguia me “acostumar”. Surgiu o burburinho: “Irene está pra voltar.”, “Irene vem aí.”. Não me iludi. Só acreditaria vendo. E vi. Como se nunca tivesse partido, Irene voltou. Trouxe com ela muita gente. Disse que tinha uma notícia. O pessoal suspirou, já prevendo o pior.

Irene percebeu e sorrindo afirmou: “Dessa vez é diferente, vim para ficar. Pelo menos pelos próximos 20 anos vocês vão ter que me aturar!”. Naquela noite, não sei se em sonho ou lampejo de memória, me vi ainda criança sentada no chão do quarto brincando. Minha mãe – acompanhada de uma senhora cujo rosto não consegui identificar – parou na porta e me chamou. Fui apresentada à tal mulher. Ela abaixou-se e disse, olhando em meus olhos:

— Taiani. Que nome bonito! O que significa?

— Não sei… E o seu?

— O meu é Irene. Quer dizer “deusa da paz”.

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