O troco

Por: Ana Paula Lisboa

Dia de sol e poucas nuvens, mas frio de lascar. Estava no Rio há três anos e depois de alguns empregos furrecas esse lhe pareceu o emprego dos sonhos. Ela só tinha que ficar sentada por 8 horas dando bilhetes e trocos.

Marinalva agora usava uma blusa de gola azul, tinha o privilegio de usar os cabelos cumpridos soltos e maquiagem. Era mesmo um sonho. Toda a belezura dela havia ajudado a conseguir trabalhar como bilheteira da Supervia na Estação Engenho Novo, mas ter terminado o ensino médio deu um empurrãozinho.

O dia de sol e poucas nuvens começou bem, depois do tal do bilhete único o trabalho diminuiu e ela podia até ouvir musica no celular com fone de ouvido escondido pelo cabelo pro chefe não ver. Marinalva era assediada por quase todos os homens que não estavam com pressa demais e conseguiam olhar pra ela através do vidro.

Pouquíssimos conseguiam alguma coisa. Ela só dava confiança pros nordestinos, a mãe havia avisado que carioca era uma raça que não prestava. Se fosse cearense ela se derretia.

Era por volta das 10h da manhã. Apareceu em seu vidro um homem bonito, alto, branco, de calça clara, pedindo um bilhete só de ida. Ela só se lembrava da cor por que pensou que não gostava de homens de calça clara. Ele pagou com uma nota de 20, novinha, que devia ter acabado de sacar, também pensou ela.

Disse que Nalva podia ficar com o troco, ela de fone de ouvido, não entendeu. Quando forçou o troco ele fez cara feia e aí sim entendeu. Disse que não, que não podia aceitar. Ele estranhou, a cara ficou mais feia ainda.

Respondeu que pra ode estava indo não precisaria de dinheiro. Mas ela bateu o pé, se é era pra fazer cara feia a de Nalva foi de bruxa. Ele aceitou, sem conferir, enfiou tudo no bolso e passou a roleta.

Ficou foi lá, parado, olhando pro ontem.

“Ora, onde já se viu… ficar com troco, depois vem amanhã cheio de historinha e vai querer passar de graça que eu sei. Ou pior, vai querer o troco em outra moeda. Onde já se viu… Pra onde eu vou não preciso de dinheiro…Diabeísso…Pra onde eu vou não preciso de dinheiro… Só aqui mesmo que tem esses cabras, de onde venho a pobreza é muita…Eu precisava era de dinheiro, devia de ter ficado com o troco! Vem me aperrear logo essa hora que é a hora boa. Todo mundo precisa de dinheiro, seja lá pra onde for…”

Aí Nalva teve um troço. Um click. Um trem desses que vem sei lá não sei de onde. De repente soube por que o moço não precisaria de dinheiro. Largou a bilheteria e correu para a plataforma. O único segurança estava longe.

O moço de calça clara foi até a beira e voltou, come se perdesse a coragem. Até que virou de costas e começou a caminhar para trás. Caiu. As treze pessoas que também estavam na plataforma gritavam, desesperadas para que o trem parasse. Marinalva pulou na linha e antes dos poucos centímetros da tragédia, puxou o moço pela calça.

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