O milagre do dia 23 de dezembro

Por: Julio Pecly

Nesse mundo corrido de hoje as pessoas já não acreditam mais em milagres, nem em finais felizes. Eu posso dizer que eu vi os dois acontecerem bem perto da minha casa.

Tudo aconteceu no dia 23 de dezembro, acho que em 1985, nessa época tinha eu quinze anos. Não os quinze anos de hoje, mas os quinze anos daquela época, onde ainda pensávamos em brincar e brincávamos mesmo. Era de pique, o legal de pique era que existiam varias opções, era pique alto, pique esconde, pique cor e pique lateiro, Carinho de rolimã, carniça, guiador e pipa.

O nosso milagre começou por causa de uma brincadeira de pipa. Antes de continuar a história uma coisa tem que ser ditas sobre milagres e finais felizes. Antes de um e de outro, infelizmente sempre existe uma tragédia.

Luiz estava querendo colocar uma pipa no alto, só que criança é teimosa e fica tentando empinar papagaio mesmo que não tenha vento. Ele corria para um lado e a pipa subia, quando ele parava, a pipa voltava para o chão. Luiz tentou isso umas cinco vezes, sem conseguir colocar no alto.

Ao ver Mauricio parado olhando para o alto sem fazer nada, pediu que ele levasse a pipa. Meu olhar se desviou desse acontecimento ao ouvir um riso bem alto, que chamou a atenção, era dona Maria, uma vizinha que estava com uma vassoura na mão, conversando com outras senhoras, ela morava bem na esquina. A risada dela lembrava muito a risada da Fafá de Belém.

Desde desse dia eu me pergunto por que em uma situação de perigo, medo ou muito estressante, tudo parece acontecer em câmera lenta? Dizem que é o corpo se preparando para um grande trauma. Se for realmente não sei.

Mauricio levou a pipa por cerca de uns trinta metros, chegando bem perto da esquina onde as senhoras conversavam e onde seu irmão Marcelinho jogava um futebol solitário. Foi nesse exato momento que tudo pareceu ficar mais lento, inclusive os sons de tudo o que acontecia naquele microuniverso de acontecimentos.

Primeiro ouvi um ronco de motor bem forte, depois uma freada estridente e um Opalão verde entrou a toda na curva, quase atropelou as senhoras que estavam conversando, deu um cavalinho de pau e foi na direção dos irmãos. Juro que consegui ver nitidamente Marcelo empurrar o irmão e pular para trás, algo tipo Matrix.

Marcelo não foi atingido pelo carro, só que no momento pensei que Mauricio tinha sido atingido. Todo mundo correu na direção da batida, pude ouvir os famosos gritos de “Assassino” e “Lincha”. Um numero maior de pessoas resolveu ver o que tinha acontecido com os meninos, inclusive eu.

Marcelinho estava de pé sem nenhum arranhão, já o irmão dele estava deitado no chão ensanguentado, porem vivo. Um vizinho que tinha um carro levou o menino para o hospital e quando voltou ele trouxe boas noticias. Mauricio apenas quebrou a perna e teve um corte bem profundo na cabeça, porem sem maiores consequências. Quem mora na área até hoje sempre se lembra desse acontecimento quando o natal se aproxima.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s