O BASEADO NA FICÇÃO DOS FATOS

Por: Viviane de Sales

Já passava das onze. Desfilávamos tranquilos na Ponte Grande indo à casa do Lucas no coração da CDD. Rocinha 2. Parecíamos playboys da conversa aos pés porque fazíamos o caminho inverso dos grupos que iam procurar diversão no baile da Mocidade ou no Barra Music, uma boate construída na favela da Gardênia mas carrega no nome a ideia de que a expansão da Barra ajuda a espantar pobreza.

Na CDD se cresce tendo a Barra como referência de glamour. “Morar na Barra é um sonho!”, já ouvi de muitos. Tio Carlos é o que ficou rico na minha família: escola particular para o filho, sair do país e só anda de carro. Uma vez chegou à loucura de pagar suítes num hotel cinco estrelas na Sernambetiba, distribuindo os parentes.

Descobrir o frigobar e a tecnologia do banheiro foram meus grandes momentos. Ainda era menina demais para achar a vista da sacada mais incrível do que deixar os pés enterrados à beira-mar, contando as ondas de perto.

No churrasco do Zeca, eu só tinha bebido um enérgico e dado alguns bicos na cerveja enquanto todos bebiam desde cedo. Estava um pouco frio e esqueci meu abraço no João Samuel no caminho inteiro. Não sei se era saudade, como não nos víamos desde o show do Slipknot, ou se era para fugir do Hélio que há três semanas insistia em me comer.

Já no portão, descobrimos que ninguém tinha maconha e começamos a discutir em tom bêbado o que seria feito. Mal chegamos e minha prima Luísa já estava agarrada no corpo de Sérgio ocupando a maior parte da cama. Descansamos um pouco e traçamos um plano fácil. Comprar cerveja, comprar a parada e ligar um som.

Lucas ligou The Doors com o dedão do pé e ofereceu a bicicleta, mas só tinha dois reais na carteira. Davi, o único playboy original disse que dinheiro não era problema. Hélio, com raiva do toco, estava decidido a sair logo da quitinete e não esquentar a cabeça. Saíram os três mosqueteiros atrás da parada.

Fiquei com João Samuel no espaço que restava da cama e a coisa começou a ficar séria. Escolhi uma rota de fuga que ficar com ele ia ser roubada. Mas Luísa e Sérgio botavam pilha. João era bi. Contou detalhes do lance que teve com um cara que namorei por uns três meses. Fiquei bolada. Saí. João me enquadrou no corredor, abriu minha calça e queria me chupar. Fiz a campanha do “não!”…

“O tempo passa rápido”, concordamos quando ouvimos o barulho dos moleques voltando. João entrou no banheiro, ficou nu e me convidou. Disse a ele que tomasse banho só e fechei a porta. Voltaram sem nada! Quer dizer, só trouxeram cerveja. “Essa hora já acabou. Só tem lá do outro lado, no Zeca”, falou Lucas. Sérgio e Luísa ainda estavam sonoramente se entendendo. Tocava Ben Jor, fizemos um brinde.

Hélio acendeu um cigarro de palha na roda e Davi se engasgou. João Samuel ouvia tudo, saiu do banho e fez uma pose no quintal caindo na gargalhada. Nem tinha explicação, mas riso é que nem bocejo, meio contagioso. Percebemos que Luísa e Sérgio também riam, aí que virou uma sessão sem sentido de risadas sem fim.

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