Numa favela não muito longe daqui…

Por: Regiane Braga

Há 24 anos ninguém morria de bala perdida na favela, ninguém tinha a cabeça raspada à toa, quem apanhava não apanhava por nada, mas ela apanhou! A família dele bateu tanto que machucou não seu corpo, mas o sentimento, a alma.

Ele se casou com outra mulher que se dizia amada e feliz ao seu lado. Cláudia apanhou calada, e não chorou, mas jurou vingança. Órfã de mãe prostituta, avó macumbeira e pai desconhecido. Tinha sido adotada aos 10 anos por uma família negra e humilde, que tentou dar-lhe um futuro diferente.

Conhecera aos 12 anos Paulo, o grande amor de sua vida, mas era crucificada pelos erros dos seus antepassados. Os fogos que anunciavam o Natal anunciavam também a penetração profunda de um amor proibido, que trazia no gozo ofegante e amargo a semente de uma união eterna.

O beco escuro da favela, iluminado pelos fogos que não paravam de estourar, guardava agora um segredo que apenas os dois corpos poderiam contar…

Aos 16 anos tudo era muito mais que carne, tesão, beijo, união. Cláudia queria vingança, ter não somente na lembrança, mas mostrar para a família dele o resultado mais lindo do amor proibido por todos. Desejo saciado!

Ou renovado. A pequena de 1 ano esperava ansiosamente o pai chegar do trabalho para abrir os presentes. O menino de meses esperava a mãe, que saíra para visitar uma tia, para ser amamentado, e o beco guardando um segredo.

Respirou fundo uma única vez. Aprontou as malas, o filho, e mudou-se com o atual marido para fora do Rio. No morro da matinha, o beco sentia saudades de um novo segredo. Paulo estava cada vez mais dedicado ao trabalho e comemorava mais um ano de casamento com Deza e sua filha.

Já em Macaé, Cláudia anunciou uma nova gravidez! Fogos! O marido Roberto prontamente esboçou felicidade, mais um filho, filha! Era menina e seria o xodó da família. Mais uma criança branquinha, com traços finos e cabelos lisos para desfilar com o paizão por toda a cidade. O enxoval estava pronto, o chá de bebê tinha sido um sucesso e… a bolsa estourou! Correu para a maternidade, a madrinha desmaiou, o filho de um ano foi esquecido na vizinha, e nasceu!

– Neguinha?

Foi a única palavra que saiu da boca de um dos tios inconvenientes, e todo o hospital se olhou sem dizer nada, até que Roberto disse risonho:

– Deve ter puxado o avô. É preto como um carvão. Mas é linda mesmo assim. E chamou-a de Vitória.

Cláudia respirou aliviada, afinal, conseguira escapar das pauladas de mais uma família. E o beco já não guardava mais o segredo.

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