Neném e a Linguiça

Por: Alexandra Silva

Criança em comunidade sabe como é, improvisa em tudo. Nas roupas, nos brinquedos, nas brincadeiras, nas histórias. Afinal, sem recursos financeiros, elas se alegram com qualquer novidade. Viram-se como podem.

Ali, na localidade da Araruá, em um barranquinho que existia atrás da casa de Seu Carlos e que por vezes servia de lixeira dos moradores do morro, as criancinhas brincavam de tudo. Tinha dias que brincavam de pique; de pai e mãe; de jogar bola; faziam fogueira – Pareciam ser do tempo das cavernas.

Certo dia elas brincavam de escorrega. Brincadeira que se resumia em descer o morrinho, sentados em uma folha de papelão, e por vezes não dava certo e sempre tinha uma criança machucada. Mas, não impedia que elas continuassem brincando.

Como dizia uma vizinha, D, Neia: “Filho de pobre é um lutador. Não é um tombinho que vai fazer desistir”. Neste dia, estavam em um número considerável: “Umas oito crianças, entre irmãos primos e amiguinhos”.

Minutos depois, chegou a Xuxinha, uma pretinha de uns sete anos, pequena para sua idade, mas, muito esperta. Não era uma das mais velhas do grupo, mas, “meio” que mandava no grupo. Ela subiu toda contente, pois, ganhou de alguém uma linguiça espetada no palito de churrasco.

Como disse: “Criança de comunidade, se alegra com qualquer coisa. Comida então”. Xuxinha subiu até o morrinho, toda contente, roendo pelas beiradas a tal linguiça. Ria de um canto a outro da boca. Parou próximo aos amiguinhos e foi logo gritando: “Nem adianta que eu não vou “dá” pra ninguém! Ganhei da D. Peda e vou comer sozinha”.

Neste momento seu irmãozinho, Victor se aproximou e já segurou sua mão tentando pegar a linguiça. Outro irmão, um menorzinho já vinha de boca aberta, tentando abocanhar a iguaria tão cheirosa. Mesmo a assim, ela conseguiu se desvencilhar e correu para o alto do morrinho, onde as outras crianças esperavam por ela ansiosas.

Que mancada Xuxinha cometeu. Correu pro fogo. As crianças simplesmente ignoraram seu aviso e avançaram em cima do espetinho com linguiça. Gritaria geral, empurra daqui, puxa dali. Até que um grito e a cara de espanto de todos. – Não! – Olha o que vocês fizeram!

Xuxinha estava desolada e com os olhos cheios d’água, olhava incrédula para o que aconteceu e repetia chorosa: “Minha linguiça, minha linguiça”. Que rolava o morrinho abaixo, depois que alguém conseguiu tomar da mão da menina, mas deixou cair.

Sorte mesmo, quem deu foi Neném, o cachorro de estimação da garotada. Ele nasceu por ali e cresceu acompanhando a molecada pelas ruas, sempre latindo, pulando e hora dando umas mordiscadas em quem insistia segurar o rabo.

Ao farejar a linguiça tão disputada, caída no chão, não perdeu tempo e abocanhou a “iguaria” e saiu correndo, todo feliz, abanando a cauda, indo para um lugar mais tranquilo saborear seu “presente”.

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