Mirinduva

Por: Ricardo Lins

Em frente a minha casa vive um ser adorável, calmo e belo capaz de transformar meus estados de espírito: uma árvore, louro-de-são-paulo, nativa da floresta de chuvas da costa atlântica, chamada também de mirinduva. Gosto de um nome feminino para está árvore, ela é com certeza um ser feminino, tal a delicadeza de sua alma, embora muitos homens sejam delicados.

A minha mirinduva é imensa, chega ao teto das casas, e é elegante no seu porte, sua figura vai se abrindo aos poucos em direção céu, e convivemos de muito perto, mesmo estando ela na calçada de lá e eu na de cá. Sua copa é magnífica, uma folhagem de variados tons que resultam num verde escuro profundo e argênteo.

Dá muita cobertura à rua, deixando um largo espaço sombrio. Por isso, e também por ser uma árvore rústica e de rápido crescimento, ela é largamente usada na arborização das ruas da cidade, algum botânico inteligente que antigamente trabalhava com parques e jardins a escolheu, e hoje, tantos anos depois, eu, que fui trazido a este recanto da cidade por um acaso de “amor”, agradeço a este senhor, ou senhora, sua delicadeza, sensibilidade e sabedoria em sua escolha.

Hoje vejo que estão plantando palmeiras e mais palmeiras na ruas, e as consideram lindas as palmeiras, mas sua figura esbelta são adequadas às fachadas históricas, praias ,ou cidades que não sofrem de verões escaldantes.

Na copa da mirinduva habitam tantos seres que poderia ser chamada de uma cidade natural. Há pássaros de vários tipos, que cantam durante todo o dia, e muitas vezes vêm pousar nos galhinhos secos de minha buganvília. Há besouros, borboletas, taturanas, e dizem que até cupins. Há seres imaginários, também, os lobos do sonho freudiano, os meus gatos alados, os fantasmas dos escritores mortos, as palavras da poesia, com rabos peludos.

Tantas vezes paro de trabalhar para ir à varanda conversar com a mirinduva e seus pássaros, uma conversa secreta e silenciosa, em que não sei o que digo nem o que ela responde, mas quando volto ao trabalho estou refeito, descansado, como se tivesse dado um longo passeio numa floresta, respirando ar puro e paisagens intocadas.

Sei que ela limpa um pouco o ar irrespirável desta cidade, sei que ela refresca nosso verão, e no inverno perde suas folhas, deixando o sol penetrar nas janelas das casas. Sei que ela floresce de junho até agosto e dá frutos que alimentam as aves, e sementes, sei que ela tem alma, sei que sua madeira pode ser usada na marcenaria carpintaria e construção civil.

Por duas vezes veio um caminhãozinho com um motosserra para cortá-la com o pretexto de que estava tomada de cupins, mas a roda de seu tronco exibe uma integridade que cria as mais terríveis suspeitas.

Os cupins podem ser tratados, não podem? Mais é mais fácil cortar a árvore. Que importa? Diz a ignorância humana. Sei que algumas pessoas têm aversão pelas árvores, são pessoas tristes e equivocadas. “Como que a erva tem dor… Roem-na amargura, Talvez humanas e entre rochas dura” ,disse Augusto dos Anjos. Toda árvore é sagrada. O prazer de amar alguém ou uma árvore, ou todas as árvores, é o prazer de amar a si mesmo sob outra natureza.

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