Lenço esverdeado

Por: Poema Eurístenes

Os finais felizes que aprendi a reconhecer sempre envolviam casamentos, filhos, gente ficando rica, bandidos sendo presos, gorda ficando magra, feia ficando bonita e tantas outras coisas que gente como Manoel Carlos me fez pensar que são as únicas possibilidades de felicidade. A história que contarei agora não contém nada disso, mas para mim, ela é coisa que dá felicidade só de ser lida, imagine só vivida. E é por isso que a escolhi.

Sorriu. Respirou fundo e pegou sua pequena bolsa. Já estava um pouco atrasada e a viagem seria longa. Ônibus. Trem. Caminhada. Destino. Mas, fazia aquela rota bastante sorridente toda vez que era necessário. E sempre bem acompanhada, quando não era seu amado marido, sua irmã ou sua tia, amigos se ofereciam.

Acho que essa história de felicidade alcançada poderia acabar aqui. Só que para que ela faça algum sentido para você, que está do outro lado do papel, vou contar alguns detalhes importantes da vida desta mulher.

Sandra. Parida foi. Perdeu a mãe. Morou no orfanato. Mudou-se com a tia. E como apanhava a pobre menina. Arrumou um deus. Com devoção os joelhos dobrava. Quando virou mulher, tinha que casar. Com ainda mais devoção os joelhos dobrava. Apanhou. Apanhava. Pariu.

Ficou doente. A fé era tanta que achava que rezar bastava. Não bastou. Foi em busca de doutor que pudesse dizer-lhe do que padecia. – Se mal não é tristeza. O que tu tem é triste, mas tem outro nome.

Perdeu a fé. Bebia, fumava, dava feito louca para quem encontrasse querendo receber. Ganhou fé. A primeira palavra que seu pequeno disse mudou tudo. Resolveu se tratar e também fazer as pazes com deus. Primeiro, a primeira coisa. Fez tudo na surdina, pois boa cristã não deveria perturbar a família com males pessoais.

Operação. Dessas que envolvem bisturi e anestesia. Teria que ficar sem a teta esquerda. E o pior, teria que contar tudo para a família. Páscoa, dia de ressurreição, bom dia para vomitar tudo o que precisava: lamentos, chocolate, cânceres, tudo o que o copo duplo de gim quisesse empurrar pra fora.

Para sua surpresa o regurgito foi bem lambido pelos entes. As coisas soaram meio falsas a principio, sentia-se rodeada de bijuteria barata que tem prazer em dizer-se diamante. Mas, aos poucos viu que era real.

Ganhou o primeiro lenço depois de três dias. Era lindo, bordado com miçangas verdes. Até comprou uma peruca, mas se sentia melhor com o ele. Tinha tom de esperança e isso lhe cabia bem.

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