Histórias de vó

Por: Hosana Souza

Não descobri o mundo através dos livros ou da televisão. Os primeiros contatos que fiz, entre sonho e realidade, aconteceram com pés descalços pulando na varanda. Aconteceram através de sua voz.

Veio do Ceara, fugida em pau de arara como todo bom nordestino. Mesmo queimada de Sol, e como é quente o Sol cearense, a pele se mantinha branca, os cabelos pretos longos na cintura, os olhos como os de Capitu.

Suportara um pai brabo e uma madrasta digna de contos do Walt Disney. Suportara a seca e a fome. Mas não suportaria jamais que alguém lhe levantasse a mão. Menos ainda ele, que nunca ajudou em nada. Fez novena para deixar o amor que sentia queimar como a terra. Fugiu com uma criança no braço e outra no bucho.

Passou meses de fome na Cidade Maravilhosa até conseguir emprego. Tinha uma simpatia timidamente calada e a força de uma heroína. Sempre fora bem-vinda em qualquer lugar. Encontrou o amor nos braços de um preto magro, malandro, motorista. Que largou a noiva para ficar com ela e pôs nome de santo em sua criança.

O terreno de sua casa ficava no mangue, à parte feia da parte esquecida do município que não fazia parte da história. Ao menos era perto do rio. Por anos só teve uma vizinha. Pernambucana, viúva, arretada. Tornaram-se tão companheiras que fingiu não ter ficado sabendo da noite em que seu nego sossegou o facho da amiga.

Ele era um homem bom. Fazia agrado, trazia presente, pegava no colo, tinha carinho por ela e principalmente pelas crianças. Morreu esfaqueado no que não se sabe ter sido briga de bar ou assalto ao ônibus. O corpo estendido no chão como em samba e ela tentando tirar satisfações com a vida.

Nos dias mais difíceis, e não foram poucos, catava bertalha na beira do rio. Lavava como quem tem nas mãos a maior preciosidade. Cortava fininha como couve e temperava com sal. Delicia.

Trabalhou de graça para a senhora dona do colégio perto de casa até que todos os sete filhos tivessem completados seus estudos. Trabalhou para exibir um chão vermelhão na sala-cozinha, que brilhava graças a bunda dos filhos que enceravam brincadeiras. Trabalhou em cada parede, móvel, criança.

Quem chegasse a sua casa beberia ao menos um café em copo de geléia, especial para as visitas, em dias comuns bebe-se em caneca de alumínio. Quem chegasse a sua casa não encontraria bagunça ou sujeira, mas uma mulher orgulhosa de sua criatividade, pronta para transformar qualquer coisa velha da patroa ou arrumada de beira de rio.

Quando seus olhos se fecharem vai chover no sertão do meu rosto, mas só o suficiente para florir um poema daqueles que você decorou ou inventou ao sorrir, por que todas as histórias tem final feliz.

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