Goiabada

Por: Romulo Narducci

Não se poderia chamar aquilo de um circo, mas na verdade, o esforço da Cia Yellow Clown era para que o fosse. Instalado num terreno baldio numa rua principal no Mutuapira, em São Gonçalo, a lona rota com o seu tom colorido desbotado se erguia entre tímidos holofotes e um humilde parquinho onde o minhocão era a atração principal das poucas crianças que iam uma vez ou outra prestigiar as apresentações.

Animais o circo não tinha, na verdade só mesmo o Jeremias, um chimpanzé velho que poucos truques realizava sob as bruscas ordens de comando de Seu Abdias. Havia também um mágico que surpreendia tirando coelhos de sua cartola, mas ele não tinha uma ajudante que pudesse cerrar ao meio.

Tinha ainda uma bailarina contorcionista e um velho malabarista de garrafas que ainda atirava facas contra uma adolescente franzina. O homem mais forte do mundo – bastante fora de forma, para se dizer a verdade – ficava erguendo em um só braço a sua esposa, Frida, a mulher barbada e, ainda, havia a modesta companhia de palhaços formada pelo Trio Tropeço comandado pelo anão Cotovelo, e seus enormes companheiros Goiabada e Casca-mole.

Era noite de apresentação. Em dia de feriado o circo ficava ainda mais vazio. Porém, vazio mesmo estava Goiabada antes de entrar no picadeiro. Sentado na penumbra de seu humilde trailer a fumar amargo o seu cigarro com sua roupa colorida, arfava a desilusão de seus pulmões com a fumaça cinza de seus pensamentos.

Goiabada puxou uma corda escondida embaixo de sua cama e preparou minuciosamente uma forca. Achou o ponto perfeito onde seus pés não alcançariam o chão após o salto de libertação de todas as dores de uma vida colecionadora de abandonos. Certificou-se que o ponto era firme e que agüentaria o seu peso. Puxou o patíbulo com força, uma, duas, três vezes até ter certeza. E aquela era a certeza maior de sua vida. Sentou-se novamente em sua cama e ficou a olhar a corda que pendia sutilmente como uma dança final de um espetáculo de horrores.

Engoliu a seco, mas a certeza ainda estava ali tomando seu corpo, alma e pensamentos. Já estava atrasado para se juntar ao Trio Tropeço, mas seus planos já estavam traçados: após o show de palhaços o trio já não contaria mais com sua presença, nem a vida.

O show começou. Chegou a vez dos palhaços: cambalhotas, explosões de farinha de trigo, tapas na cara, calças caindo e canções velhas já conhecidas por todos. Na platéia vazia, cinco crianças acompanhadas pelos seus respectivos pais, se contorciam de rir. Goiabada por um breve momento ao ver a alegria das poucas crianças no circo, sentiu em seu peito queimar uma dor de arrependimento.

No fim, uma criança correu das mãos dos pais em sua direção e o abraçou dizendo: “Você é o palhaço mais engraçado que eu já vi”. Goiabada sorriu com uma tímida lágrima de satisfação. De volta ao seu trailer, desfez a forca e jogou a corda no lixo, prometendo para si mesmo que jamais deixaria de fazer sorrir uma única criança.

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