ESTADOS DE ESPÍRITO

Por: Enrique Coimbra

O término, para começar. Passou a repetir que não encontrava mais em Marco o homem gentil e apaixonado que conheceu há um par de anos. Riscava a imagem do namorado sem perdão, procurando as razões para tirar da casa dele a escova de dentes, o desodorante extra-seco e a caixa de absorventes sem hesitar.

Socou a parede e gritou até os pulmões explodirem que ela só precisava pedir uma prova de seu amor, que faria qualquer coisa para tê-la de volta. Cris recuou e achou melhor ficar só com as lágrimas de desespero. Marco cuspia ao berrar feito um animal selvagem, doente. Esquivou-se dos encontros ao peito dele, barreira de insultos proveniente de um amor que exclamava cultivar até nos ossos, mas que ela já não sentia. Tudo que sentia era medo.

Qualquer interação social trazia tempestades tropicais à “minilópole” Santa Cruz, conjurando chuvas, trovões e ventanias até que todos os olhos se virassem para eles, até que Marco se acalmasse e entendesse que o cara com qual ela conversara vendia perfumes do shopping.

Para Cris, só estava difícil demais mediar, ser a desculpa para que ele deixasse fora da jaula seu ego violento e inseguro. Assistindo-a arrancar com o carro para longe de seus de seus limites, Marco bebeu a sangria do ódio. Com toda certeza, sua mulher partira para estar com outro. Questão de tempo até que o motivo da separação escancarasse seu rosto pelas páginas ingratas do Facebook da única por qual ele teria entregado o mundo.

O sorriso tão familiar dividindo espaço com a expressão jovial e feliz de um rapaz que parecia rir de Marco estampou o perfil que lhe pertencia antes da atualização do status de relacionamento indicar “amizade colorida com Cássio Billac”.

Na página de eventos da, depois de três meses, ex-namorada, a confirmação de presença na festa anos 80 num sítio mastodôntico das redondezas. Marco já estava a caminho com suas melhores roupas, as mais caras. Homem de atrair os olhares, causar inveja, atiçar hormônios com fome, desceu do carro com a expressão cinza, preocupado com o caimento da calça, com o aperto do cinto.

A prova de seu amor se refletia na capacidade de encontrar o brilho de Cris, sua Ariel, perdida no mundo dos homens com as pernas que acabaram de içá-la do mar das sereias pro meio de tanta gente distinta.

Um buraco negro drenava sua luz, sorrindo no grupo de amigos em volta do bar sob a tenda de lasers verdes e iluminação ultravioleta. Os pés de Marco marcharam na velocidade acelerada da batida eletrônica até o ladrão de mulher. Cris e sua incredulidade.

Cássio apontou para o peito de Marco, ordenou para que saísse, mesmo que o som não deixasse eles se ouvirem. Marco apontou o revólver para a testa de Cássio e fez com que o mundo inteiro escutasse o disparo oco atravessar o cérebro do marrento à frente. Ele agora aproveitava imóvel, no meio de tanta correria, a sensação de sorrir novamente, de sentir seus pelos levantarem por excitação e suprema alegria. A noite da prova de seu amor foi a mais feliz de sua vida.

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