Quem tem padrinho Calote, não morre pagão!

Por: Jeferson Pedro

Confesso que gostava quando a entrada do ônibus era por trás. No meu tempo de moleque, perdi as contas das vezes em que entrava pela traseira, encarava a trocadora, sentava na janela e quando o motorista abria a porta para os outros passageiros subirem, eu não vacilava. Descia os degraus debochando e comemorando mais um calote. Foram tantos que ganhei apelido e fiquei famoso na rua.

Não me esqueço do dia em que o motorista – de sacanagem – fechou a porta do ônibus na hora em que eu ia saindo. Fiquei com parte do braço para fora do ônibus até o outro ponto. Por sorte não machuquei o braço, pois os carros vinham pela Brasil, numa velocidade que parecia cena do filme “Corrida contra o destino”, do Quentin Tarantino.

Depois de três anos na prisão percebi que o tempo não passa para quem está lá dentro. Por mais que você leia, ore, converse com os companheiros de cela. No dia que prenderem meu padrinho Bolacha, ouvi meu pai dizer que na cadeia, um dia tinha o peso de um ano. Meu velho tinha razão, quando fui preso entendi fácil a matemática dele.

Era madrugada, sai de casa na calada da noite e deixei minha mãe e minha namorada com o coração partido, não me despedi das minhas rainhas. Eu não podia dar mole perdendo a hora ou chegando atrasado na prisão, logo no meu primeiro final de semana em liberdade condicional. E sou o típico cara que não nasci pra contar com a sorte!

O ônibus chegou, dei a vez para duas tias passarem na minha frente. Entrei e me dei conta de que não tinha nenhum centavo na carteira para pagar a passagem. As tias passaram a roleta, sentaram e envergonhado olhei para o trocador. Era um velho de cabelos brancos e muito crespos, com apenas uma das vistas. Tava com sono, mas consegui lembrar que o homem era o meu padrinho Bolacha! Mesmo depois de tanto tempo sem nos vermos fui surpreendido pelo destino, – e pela sorte também – o bandidão me reconheceu e gritou:

– Tá quebrado né guerreiro? Quem tem padrinho Calote, não morre pagão! Vou pedir ao Maurição para abrir a traseira pra você valeu?

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