O feijão de D. Rita

Por: Abrahão Turko

Minha póstuma lembrança dela seria com certeza algo aterrador para uma mãe, por tanto optei por não dizê-lo, apenas tentar confortar com palavras que Dona Rita certamente precisaria ler.

Valéria não estava mais ali e eu sabia disso, a barra inferior piscava, Dona Rita no msn vagarosamente digitava, dividia comigo sua preocupação. Não poderia dizer que minha dor naquele momento era mais pugente, olhava para a nossa foto em ilha grande e a pirraça que ela tentou disfarçar quando uma sueca puxou assunto comigo no catamarã, ela detestava mulheres loiras.

Me apavorava a ideia de que Valéria agora, só poderia habitar minhas lembranças. Quando ficávamos horas conversando nos corredores gelados do pavilhão 8 da UERJ, nossas rapidinhas nas escadas do nono andar e seus olhos pesadamente pintados de preto que naquele dia estavam úmidos.

Me deu uma sacola com seus pertences mais preciosos, desenhos infantis, cd´s de Black metal e seus escritos da pré-adolescência.Valéria era esquisita desde criança,quando cantava parabéns pra você nos velórios, ao ver todo mundo ao redor do caixão.

“-Fica quietinha, minha filha!” dizia D. Rita, que no fundo sempre soubera que tinha uma filha incomum e temia onde isso poderia resultar.

As palavras em caixa alta e a ingenuidade que beirava a estupidez de D. Rita me cortavam o peito, fazia com que eu me sentisse um covarde por não conseguir dizer a verdade logo de uma vez, ficava numa confusão dos diabos, dicotomizava razão contra a fidelidade.

Eu não a amava, mas me apaixonei pelo lirismos como ela decidia seu próprio caminho,e até como ele terminaria. Meu estômago se revirava em angústias e arrependimentos.

“-Ai, essa menina que não chega! Sábado vou fazer feijão tropeiro pro aniversário do tio dela, vem comer com a gente, meu filho..”

“-Com certeza, D. Rita! Nunca dispensei uma comida da senhora!”

Até nossas fotos mais recentes, pareciam amareladas, a mania de puxar as narinas fazendo cara de bicho, a inquietude de suas pernas de madrugada, o moletom surrado que eu detestava. Era tudo cinza. Minha boca amargava, de culpa e do feijão tropeiro que eu nunca comeria.

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