Naquela estação

Por: Poema Eurístenes

Circulava pelas ruas como veleiro destinado a mar sem vento, ao qual nem mesmo remos restam. Frente ao pequeno entrave de metal frio que me separava da redoma de aço morno, toquei os bolsos, triste foi não sentir nada neles. Virei-me para a primeira criatura, que, com sorriso disfarçado em seriedade, sequer olhou em meus olhos. A segunda abordagem foi mais bem sucedida, consegui um “Não me toque!”. As pessoas estavam especialmente amáveis naquele fim de tarde. A soberba tomava conta de mim, afinal, a invisibilidade que os outros me faziam sentir colocava-me em lugar sagrado.

Depois de muitas horas investidas em busca de calor humano, percebi que já era tarde demais, que naquele instante não era possível vislumbrar calor e, em medida menor ainda, humanidade naquela estação. Cai feito folha outonal, bem devagar, arrastando-me pela parede. Não sabia o que me esperaria àquela noite. Dois e noventa me separaram da minha acolhida. Teria que resistir àquilo que mais forte conseguia me atingir, àquilo que torna os homens semelhantes seja lá quais sejam suas origens.

Havia pouca justiça nas ruas à noite. Os vagões eram tudo o que eu tinha como abrigo e que, naquela tarde não me abrigou. Não pude dormir, e já não poderia se quisesse ver o amanhecer do dia seguinte. Tentei manter-me de pé o máximo de tempo possível, mas, o estômago inane tinha maior força sobre elas.

Sentei. Olhava a todos e a tudo. Sem o sono as ruas eram tranquilas, mas minha fraqueza corporal me tornava fraco mentalmente. Enfim, parecia que três quintos da noite já eram passados, certamente o pior já passara. “Nesta manhã o corpo de um morador de rua foi encontrado na Av. Rio Branco. O rapaz, pela posição em que estava, parecia estar dormindo quando foi surpreendido pelos agressores e seus galões de gasolina e fósforos.”

– Anunciava a pequena nota no jornal.

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