Sapataria Botafogo

Por: Viviane de Sales

Domingo. O despertador se tornou um dos objetos mais úteis dos poucos que existem no meu quarto. É um ícone da salvação, mas quando ele toca às seis da manhã no único dia de folga que tenho… Minha vontade é de jogá-lo tão longe quanto possível. É uma raiva que me dá… Perder a razão é quase regra.

Meu quarto é escuro demais. O aluguel deste buraco deveria ser mais barato porque o sol não bate na janela em nenhum momento do dia. À noite, não sei como, entram uns fragmentos bandidos do brilho da lua que deixam certo ar de romantismo. Há três anos levando a vida neste cubículo e parece inacreditável que eu nunca acerte como chegar à janela quando me levanto, nem aproveitando as luzes do computador brilhando na mesa como pontos de referência.

Abrir as cortinas é sinônimo de encarar a mais completa bagunça.  Desta vez: tudo pelo chão. Pilhas do jornal O Extra, livros e revistas, um dois três sutiãs da Manuela, pontas e várias latinhas de cerveja eram capazes de contar um pouco sobre as aventuras moderadas da semana. Sem grana nós não saímos na sexta à noite, ficamos em casa contando histórias uma para a outra. Dividindo planos, bobagens e misturando o desejo como há tempos não fazíamos: abraçadas, janelando os boêmios da Penha para compartilhar deles certo nível de embriaguez, a sós.

Andei pelo quarto numa análise rápida da bagunça e sentei na cadeira do computador. Mexi no teclado e ele saiu do estado de hibernação. Havia muitas páginas e arquivos abertos: site para downloads de músicas, currículo da Manuela em documento no Word, algumas fotos de um passeio na Quinta da Boa Vista. De repente se abre uma janela de bate-papo do Messenger com a Lizete, a mãe da Manuela:

FALA P/ MANUELA VIR P/ KSA Q ELA AINDA TEM FAMÍLIA !!!!!!!!!!!!!

(Sogra acabou de chamar sua atenção)

(Sogra acabou de chamar sua atenção)

….

Cheia de sono, fiquei sem entender a loucura da Lizete. Na manhã de sábado, eu era uma moribunda que ia trabalhar e a Manu estava animada para fazer surpresa no café-da-manhã de sua avó Dona Alda, que completava oitenta anos. Saímos do apertamento e nos despedimos na esquina da padaria, eu segui até o ponto de ônibus e ela atravessou a rua indo para casa.

Que gelo no coração. Corri para pegar meu celular e ligar para Manuela, enquanto a Lizete não parava de apertar o botão de chamar a minha atenção no Messenger. Liguei umas dez vezes. Só caía na caixa postal. Não queria falar com a Lizete por telefone, ela ia certamente me infernizar com uma gritaria interminável. Respondi pelo MSN:

MANU SAIU DAKI 7 DA MANHA ONTEM, EU FUI TRABALHAR E ELA FOI PRA KSA FAZER A SURPRESA PRA DONA ALDA. ELA NAO CHEGOU ???????

Respirei fundo com medo do que viria de resposta.

MINHA MAE ESTA COM A PRESSAO NAS ALTURAS POR CAUSA DA HISTORIA MALUCA DE VCS. POR Q VC NAO DEIXA A MINHA FILHA EM PAZ? ELA SO TEM 17 ANOS, KER ARRUMAR CONFUSAO ????

Era melhor negócio fechar a conversa de tão nervosa que eu tinha ficado. Mas Lizete continuava digitando. Podia ser alguma informação relevante para o pente fino que eu ia ter que fazer sozinha na Penha.

FIZEMOS A SURPRESA AKI ONTEM, SÓ Q DEPOIS BRIGAMOS POR CAUSA D VC. ELA SAIU DAKI COM RAIVA DE MIM E SE ELA NÃO ESTÁ AÍ COM VC, ONDE ELA PODERIA ESTAR ????

Assumi o risco e fechei a conversa. Desci correndo os quatro andares vestindo a roupa velha que usava para dormir, sem carteira, sem celular, sem ter os neurônios da cabeça no lugar. Corri pela rua e atravessei dois quarteirões. Só via crentes indo participar de algum culto em algum canto e poucos carros passando. Parei. Que andar sem saber para onde ir é foda. Sentei no banco da praça do IAPI e fiz uma retrospectiva.

Aquelas fotografias e o currículo dela no meu computador… É CLARO. Ela tinha voltado para minha casa depois de discutir com a mãe. Retornei menos transtornada para investigar outras pistas do paradeiro dela. Quando eu cheguei do trabalho depois de insuportáveis horas-extras naquele estoque maldito da Sapataria Botafogo, eram nove e meia da noite. Uma menina faltou e eu tive que fazer a cobertura do horário dela. Tão cansada, eu apaguei de sono e não tinha percebido o mínimo rastro da volta de Manuela.

Quando cruzei a esquina da padaria, lá estava a bela com passos bêbados em direção a minha casa, segurando um saco de pães e outro de leite. Caralho, que susto! Abracei a puta e perguntei onde ela tinha passado a noite inteira com aquele vestidinho verde-claro curto demais. Ela fazia comentários sobre os acontecimentos do churrasco onde estava na casa de uns amigos na Chatuba alternando com o assunto da confusão em casa ontem cedo. Estava completamente bêbada, a louca. Não faço ideia de como conseguiu chegar perto de casa numa boa.

Subimos a escada. Infernalmente. Coloquei Manuela no colchonete e encontrei um bilhete ao lado do despertador:

Sara,

Briguei feio com a mãe e passei o dia todo aqui. Vai me encontrar no churrasco da Fabiane quando chegar. A festa na laje vai até de manhã.

Te adoro, beijos. Manu.

Deixei o corpo de Manuela mais à vontade, fechei as cortinas e corri para o Messenger. Fiquei online e eu só começava a digitar para a Lizete, quando recebi dela de forma grosseira e absurdamente injusta uma péssima notícia:

MINHA MÃE ACABA DE FALECER POR CAUSA DE VC !!!!!!!! VAGABUNDA!!!!!!!!!!

Levantei, abri as cortinas enquanto já gritava enlouquecida com Manuela sobre sua irresponsabilidade de quem faz merdas sem nunca responder por elas. Consegui contar da pior maneira possível sobre a morte de sua avó. Ela, confusa e assustada, chorava sem dizer nada.

Isso foi só uma atitude de transferência de culpa. Para minha consciência ficar mais tranquila.

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