O começo do fim

Por: Juliana Portella

Na vida, há situações extraordinárias, uma das quais acontecem em dias comuns, quando a gente imagina que está tudo bem. Como de hábito, liguei para Lucas no caminho da minha casa até o ponto de ônibus, enquanto ia para o estágio. Durante a manhã continuei tentando contato com ele. Enviei sms, entrei em seu facebook, twitter e nada. Ainda no estágio, a mãe de Lucas me aborda com uma mensagem no facebook dizendo que não via seu filho desde que ele saiu da minha casa. Imediatamente fiquei gelada. Coração acelerou. O que será que deve ter acontecido com ele? Me perguntei.

Onde ela está agora? Com quem está? Por que Lucas não me atende? Por quê? As interrogações não me  deixaram em paz durante o caminho de 20 minutos que fiz no ônibus de  Belford Roxo ao Bairro de Caioaba onde Lucas mora com a família. Depois de ligarmos para todos os amigos, para familiares, decidimos começar a vasculhar suas coisas e ver se ele havia deixado algum vestígio.

Fomos até a delegacia para que a  polícia iniciasse alguma investigação. Abrimos um inquérito formal. Foram aventadas as possibilidades de envolvimento com tráfico, sequestro, chantagem, sequestro seguido de morte – o que não seria absolutamente de se estranhar, já que isso acontece de vez enquanto com jovens pobres da periferia carioca.  Vasculhei suas coisas, com medo de me surpreender, de encontrar pistas que me levassem a aceitar um Adeus sem despedida. Lucas havia levado sua mochila, com poucas roupas, seu passaporte, que nunca tinha saído da gaveta desde que o tirou, e curiosamente, um cartão com as imagens de São Jorge, seu Santo protetor, que ficava na cabeceira de sua cama.

Ele, um rapaz jovem, recém-formado em Ciências Sociais, sem nenhum registro na polícia, sem nenhuma pista que permitisse entender a causa de sua fuga. Eu, uma moça que sonha com uma vida passional, que tinha feito planos de viver um feliz pra sempre ao seu lado, que nunca quis se separar das minhas fantasias. Tinha sido abandonada.

Meu orgulho, ferido desde sempre, não me deixa em paz. Na minha porta só bate a solidão que esse mistério me causa. Será que não é egoísmo meu pensar assim? Será que ele estava infeliz? Será   que não estava bem realizado com a família? E com a vida profissional? Por que ele nem se despediu?

Preciso ser prática, a vida segue adiante. Não sou nem a primeira nem a última garota a ser abandonada por seu namorado – mas será que isso precisava ter acontecido em um dia de verão, nesse momento que estávamos tão bem, apaixonados, nos sonhando um com o outro acordados? Acho que eu estava amando sozinha, isso sim. – Mal podia imaginar que toda aquela alegria seria véspera desse desespero.

Vou deixar o sentimento de lado, pegar meu bloquinho de papel e tirar essas ideias da minha cabeça. Para tentar descobrir o motivo dessa fuga. Acho que já é hora de eliminar a possibilidade dele ter sido sequestrado ou assassinado. Ninguém prepara malas e tira passaporte para tal.

De todas as hipóteses, a única que faz sentido é ele ter encontrado outra pessoa.  Se o problema fosse família, trabalho ou qualquer outro, ele me contaria. E eu não posso aceitar isso, não posso aceitar que vá embora desta maneira, sem ao menos dizer a razão. Tanto eu como Lucas sempre fomos unidos. Sinceros. Cúmplices. Nunca mentimos um ao outro. Mesmo que ele tivesse dormido com outra, se apaixonado, será que não iria colocar em uma balança todos os nossos momentos juntos?

O verão passou, como tudo passa no mundo, já faz dois meses que o Lucas sumiu.  Sinceramente posso dizer que vivo bem. E sei que o inesperado acontece, sempre quando não estamos preparados para ele. Quando tudo em nossa vida parece estar indo bem, pode acontecer uma tremenda reviravolta.

Lucas sumiu sem me avisar. Deixando uma mensagem subentendida: fui embora recomeçar.

E eu ainda me pergunto: Por quê?

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