Laços

Por: Rodrigo Santos

Eu estava lendo um artigo sobre bondage e submissão quando a janela do Messenger pipocou na tela. Era D. Janete, mãe de minha noiva.

– Raul, você sabe da Sônia?

– Não… Desde ontem. Ela não voltou para casa?

– Não Raul… E o celular dela não atende.

– Fique tranquila, D. Janete, estou indo praí.

Peguei o carro e fui para Icaraí, onde elas moravam. D. Janete sentada num sofá com o telefone na mão e com os olhos vermelhos, só conseguia repetir “mas onde foi que essa menina se meteu?”

– D. Janete, fica calma. Vamos sair para procurar a Sônia?

– Mas aonde a gente pode ir, meu filho?

– Ah, sei lá, mas vamos, que cada minuto é importante. Ela pode estar precisando da gente, e Deus me livre que ela esteja correndo algum perigo.

– Deixa eu só pegar a minha bolsa.  – e saímos pela cidade.

Primeiro rodamos pelos hospitais. No Hospital de Clínicas de Niterói ela não havia dado entrada. Nem no Antônio Pedro. Passamos pela delegacia de Icaraí, pelo 12º e rumamos para a de Neves, já em São Gonçalo, onde tivemos o mesmo anticlímax. “Não, ninguém com essas características apareceu em nenhuma ocorrência”, disseram os policiais. Por último, fomos aoantigo IML, em Tribobó, mas lá recebemos a notícia – semelhante às anteriores – com alívio. Ninguém quer encontrar uma pessoa amada em um IML, não é?

Passamos pela orla de São Francisco, sem sucesso, antes de deixar minha sogra em casa. Entrei para uma água, e dei a ela mais um captopril.

– D. Janete, vá para casa. Eu vou continuar procurando, e assim que eu tiver notícias eu te ligo.

– Meu filho… Obrigado… A Sônia tem muita sorte em ter encontrado um rapaz como você…– e começou a chorar de novo.

– Não há de ser nada, você vai ver. Tome um banho e tente dormir, amanhã eu ligo para a senhora. – e voltei para casa.

Estacionei o carro e subi as escadas do sobrado. Sem acender a luz, entrei no quarto pé ante pé.

Amarrada nos pilares da cama, só de calcinhas, Sônia chorava baixinho. As cordas cortavam a pele fina de seus pulsos, e um fio fino de sangue já seco descia por cada antebraço. Ao perceber que não estava sozinha, tentou balbuciar alguma coisa, mas a maçã que eu prendera com silvertape não deixou escapar mais que alguns grunhidos. Parecia implorar, sei lá.

– Sua mãe está preocupada, sabia? Procuramos por todos os hospitais. Até no IML a gente foi! Mas agora vamos voltar à nossa conversa… – e sorri, quando meus dedos se fecharam em torno do cabo do estilete.

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