Droga pesada

Por: Vivian Farias

Primeiro de Janeiro de 2002.

A caixa de e-mails lotada de mensagens vazias, cheias de desejos copiados (e colados) piora o enjoo da minha ressaca.

Bebi tudo, de tudo, com tudo.

Bebi juízo e raiva.

Tava esperando ele desde as seis da noite de ontem. As duas da manha, (bem depois dos abraços de feliz ano novo e)  pouco depois de umas trinta tentativas de ligações não atendidas prum celular que provavelmente ficou sem bateria de tanto chamar, chamar…chamei o garrafão de vinho pro meu lado, depois ja nao lembro bem.

Agora a mensagem. Esse e-mail maldito que só vem ratificar meus medos e piorar minha enxaqueca.

– Oi filha, o Pedro esta com você?

Só isso.

Liguei pra ela: mãe do Pedro, minha sogra. Uma mulher incrível chamada Edna que faz o melhor bife de fígado que já comi na vida.

– ele não veio pra casa depois do trabalho… não esta ai?

Silencio meu.

– …dia de pagamento das vendas de fim de ano. será que foi assaltado?

Não.

Já conhecia esse sintoma.

Uma hora meu telefone ia tocar, certeza.

O dele já teria sido vendido à uma hora dessas.

Só não fazia sentido, mais uma vez, peregrinar por hospitais ou IMLs. Isso não foi inclusive, uma de minhas promessas de Ano Novo: não me fazer passar mais por isso.

Tentei acalmar dona Edna, comprei meio quilo de fígado e fui pra lá.

Oito da noite do dia três de janeiro de 2002, o celular tocou.

Era a cobrar.

Era Pedro.

Fui encontrar com ele na Central.

Levei um par de chinelos e uma camisa.

Não falamos nada.

Paguei sua passagem, ele sentou do meu lado encolhido, a testa apoiada no vidro, posição fetal tentando esconder a sujeira da bermuda com a camisa.

A grana dos dois meses de trabalho temporário numa sufwear se foi em três dias de muita cheiração e cerveja.

Antes de descer eu disse que Dona Edna estaria no ponto.

Outra promessa de fim de ano: não segurar mais essa onda sozinha. Abri pra ela a situação que há dois anos tenho de lidar quando, de meses em meses, o Pedro some.

Ele quis falar alguma coisa. Mas não disse. Seu corpo se moveu, mas ele não falou, fazia parte de um acordo bem recente e ele sabia disso. Era essa a cumplicidade que nos tínhamos prometido.

E assim foi: descemos e, já na principal, dona Edna nos esperava acompanhada de um homem de branco que, gentilmente, conduziu Pedro a ambulância.

Ele ficou lá 8 meses e, pelo que ouvi, anda bem.

Já tem tanto tempo. Disseram que teve um filho ou dois.

Ah, Pedro agora é religioso. Trocou uma droga por outra, mas já não some mais.

Amem.

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