DESAPARECIDOS

Por: Márcio Januário

Desde criança aqueles cartazes me atraiam e me deixavam petrificado. o coração acelerado,descompassado diante do milagre das possibilidades. Poderia até dizer que era uma fantasia de criança de cidade do interior. Pulava de alegria com as chegadas daqueles circos paupérrimos ou dos bandos de ciganos. Como sonhava em ter a vida colada na vida daqueles seres sem destino. Como gostaria de ter sido sequestrado, ser um desaparecido, ter desvivido a rota de um ser comum.

Naqueles cartazes de circo era sempre o meu rosto que eu via. o palhaço era eu,o domador era eu,a trapezista era eu,aquela vida era eu. Qualquer coisa que me tirasse de mim e daquele lugar era eu. Se fosse levado pelos artistas de circo teria as luzes do picadeiro como prêmio, por outro lado se fosse roubado pelos ciganos à liberdade seria viver naquela tribo de seres mal afamados e malditos. Essa seria a minha sagrada perdição. A miragem de um novo futuro na poeira da estrada me mantinha vivo.

Sonhava com meu rosto nos cartazes das pessoas desaparecidas. A cidade toda comentando meu desaparecimento, meu sequestro, minha fuga. Vibrava com esta possibilidade e por isso os cartazes dos circos e os cartazes das pessoas desaparecidas sempre me deixavam em estado de felicidade bruta. Fechava os olhos e me via nos cartazes de rostos perdido. Naquelas faces me encontrava.

Muito mais tarde consegui desaparecer daquela cidade, mas não colocaram cartazes nas paredes com minhas fotos. Nunca mais voltaria e ninguém me queria de volta naquele lugar. Quebrar tabus tem seu preço e ser a vergonha da família tem suas vantagens. Como é bom ter um passado que pode ser esquecido ou até mesmo ser reinventado. É como se aquela cidade e todas aquelas pessoas nunca tivessem existido um dia sequer.

Quando te conheci nem prestava muita atenção nas coisas que você falava. Te achava meio presepeiro, uma mistura perigosa de beleza com burrice. Não entendi e nem percebi que você estava tentando se aproximar. Achei engraçado quando você veio me oferecer coturnos que você trazia do quartel. Pensei logo, esse cara é maluco pode ser preso se pegam ele fazendo essas paradas, mas entrei na brincadeira. Marcamos o dia que você levaria a parada na minha casa e começamos a nos ver mais, bater papo, fumar um, fazer música. Nem sei quando começamos a transar, mas achei super estranho. Demorei a ter prazer de verdade com você. Tinha a diferença de idade, diferença intelectual e principalmente o fato de que nunca pensei que um dia fosse pagar para ter sexo. E que difícil aceitar que você se vendia e que eu era parte de uma clientela. A pior parte era quando o telefone tocava e eu ficava do teu lado ouvindo toda a negociação. Era uma sensação horrível, me sentia humilhado. Como é possível ter vivido esta situação por tanto tempo? Como demorei tanto pra agir? Não sei.

Por mais que tente não consigo entender. Me acostumei com a tua conversa mole e com a tua masculinidade de fachada. Você sempre tinha uma namorada bonitinha, novinha e na maioria das vezes muito burra, elas eram o disfarce perfeito. Eu era um segredo bem guardado e vital. Tenho certeza que sou a pessoa que mais a fundo te conheceu. Já sabia de cor tuas história, tuas mentiras e verdades. Sempre te deixei mentir sei o quanto isso é importante para quem precisa sobreviver na selva humana.

Acho que nunca te amei, aliás, tenho certeza disso. Nunca senti a tua falta. Para mim o momento supremo da tua existência foi quando te vi naqueles cartazes colados nas paredes e postes da cidade. Você estava lindo na foto como era emocionante ler a tua descrição, o dia do desaparecimento, o telefone para contato e a súplica desesperada da tua mãe.

Revejo todos os dias a mensagem que a tua mãe mandou quando você desapareceu. Essa é especial foi à primeira da mamãezinha preocupada com o filhinho que desapareceu, saiu de casa e estava há 24 horas sem dar noticias,era só o começo da tua glória. Vejo tuas fotos nas páginas sociais.  pessoas que nem te conheciam compartilhavam tuas fotos com cara de bom moço. Ali você estava finalmente purificado, parecia um santo.

Ninguém sabe do teu paradeiro, ninguém nunca te conheceu de verdade só eu. Hoje o dia foi ótimo almocei um pedaço da carne da tua coxa essa é a parte que mais gostava no teu corpo. O que restou guardei no freezer.

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