Desafios

Por: Yasmin Thayná

O celular tocou às oito com aqueles estranhos que quando toca no ônibus todo mundo olha para o dono do celular e pensa: esse é da macumba. Esfregou os olhos, olhou para o cronograma fixado na parede em frente a porta do quarto. A vida estava começando do zero pela quarta vez e o compromisso que ela tinha naquele dia, começava às nove, na Universidade Federal, no PAF I.

Ela participaria de um encontro com universitários para discutir questões que envolviam comunicação, arte, tecnologia e cultura digital. Desceu as escadas apressadas, colocou o café para piar no fogão e a manteiga para derreter.

Tomar café preto pela manhã traz uma sensação tão limpa quanto respirar um ar puro nas terras de Santa Rita, lá naqueles açudes da Maloca. Fernanda conseguiu sair de casa em trinta minutos, mas lembrou-se que em sua carteira verde só guardava sua identidade, seu cartão de crédito e três reais. “Ah, não vou precisar de dinheiro mesmo. Dentro da Universidade tem Santander”, disse esquecendo e não se importando que havia uma agência de seu banco em frente ao ponto de ônibus.

Preferiu arriscar. Pegou o primeiro que sinalizava “universidade”. Mas o encontro seria no PAF I e ali nos arredores de onde vivia, existia dois campus da mesma universidade. O caminho até lá era de, no máximo, seis minutos contados no relógio. 30 minutos dentro do ônibus, achando que aquele transporte era mais um que circulava por toda a cidade. Seu desespero caiu junto de uma lágrima tão salgada quanto a manteiga que passou no pão durante o café da manhã. Sem saber o que fazer, disse chorando para uma moça da Comlurb:

– Moça, como faço para chegar no PAF I? Eu peguei o ônibus errado e não conheço nada por aqui!…

-Ih menina, tá longe!..

Nove horas. Se virar era o primeiro desafio que ela teria que enfrentar naquele momento e só um sebo poderia salvar o seu atraso. Chorando, contou ao vendedor sobre o ocorrido “Moça, não se desespere. Tudo nessa vida tem um jeito, menos a morte. Pegue um livro e a gente negocia”, disse.

Sem pestenejar, Fernanda pegou Nietzsche: a genealogia do moral.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s