Depois daquela pedra

Por: Érica Magni

Enquanto tecemos palavras em teclas, os diálogos preenchem lacunas do mundo cibernético, a humanidade se transforma em partículas digitais, caracteres sem características. A nova era se levanta imperativa, copia, cola, edita, posta.

@varoavitorisosa diz:tô atribulada, o ananias ñ tá em kasa, cheguei da igreja e nada dele me esperando, como sempre, mas deixou a mochila, tá contigo?

@novinhadefé diz:a gente discutiu ontem por causa que ele  sempre quer vê além do que já vê. voltou pra casa dizendo que ia dá um rolé. Tavaestranhão.

Parte I – Anananias regurgita os cacos do amor que se quebrou;

Perdi oencantamento pelo amor que eu tinha. Mas antes era tudo paraíso, passávamos horas olhando o horizonte na copa de um jambeiro, no terreiro batido fazíamos sexo, ao longo dos movimentosvia sempre um rosto ludibrioso esperando meu gozo. Acabou depois que  eu comecei a me interessar por outras coisas. Essas outras coisas me faziam sentir alémhumanoide. Prazer nenhum nas horas em que eu não estava imbuído do caos de mim.

Um homem bateu em minha porta e eu abri.Me permiti.

Parte II – Ananias recebe a visita do primeiro bode humano.

– Pois não? O que procura?

– Oi, sabe quando você não pode controlar seus passos e apenas recebeestímulos, e os  executa? E aí, sua paranoia não esta só pairando pela cabeça, agora ela mora lá, e sem demora necrosa os nervos do seu cérebro. Então você é um pudim de pensamentos incongruentes, um caleidoscópio estático. Um focotoma conta de tudo, até que sua vista inchada de choro se desfoca e nada se vê além do contraste na retina. Ai, dor de urina, esqueci de mijar de novo. Vou embora agora. Até logo no buraco negro.

Parte III – Ananias recebe a visita do segundo bode humano.

– Pois não, o que te atormenta?

Oi, PARAR não é possível, parar de pensar é impossível, vem vindo aí a negação dos sentidos agora, não é pela fome que se rouba. Fazer sexo não passa de uma lembrança vagarosamente deliciosa. Perdeu-se a identidade há tempos dos ideais. Pronto, passou e estou pensando no meu chá de sumiço e na família que eu devo ter. Olha ali, vi uma claraboia em cima dos meus pés, por dentro desse beco fétido vi  meus sonhos esqueléticos.  Olhei pra cima e me vi num barco em movimento, indo embora para sempre, deixou meu corpo ali mesmo. Aí  pensei, já que estou aqui, vou escrever um bilhete com tinta de amora, abaixei e colhi uma teta cheia de tinta de caneta. Não estou conseguindo mais ver seu rosto. Vou embora agora. Até logo no buraco negro.

Parte IV – Ananias recebe a visita do segundo bode humano.

Pois não, o que tens a dizer?

Sabe o que é bem angustiante? Quando todas as ações que se pensa em executar não passavam de devaneios,  um percevejo conversando  no dialeto de um caranguejo. A esquina do teu tímpano já ouviu o lamento das prostitutas de cera chorando a dor da labuta desumana? Até cinquenta caras por noite, para que sempre haja barulho de estalos na cachola, a noite é profundamente grotesca quando se está só.  Meu filho, como a dureza dela é  sedutora. Como é deslizante o mundo, se besuntado com a manteiga da possibilidadeda felicidade. Não estou falando mais por mim. Venha comigo agora para o buraco negro.

Três passos depois leu a placa na parede do buraco negro em letras garrafais:

Pite neste cachimbo mágico mais uma vez para sempre , sugue para dentro do seu buraco eu, a esperança que a viagem traz, chupe esta névoa e interaja com o impossível encarnado.

Já era tarde para voltar para casa, quis ficar mais uma vez.

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s