Carteirinha

Por: Hosana Souza

Thiago ostentava 1,70m de pura timidez. Fala pouco, anda sem jeito, tem um sorriso bonito. Um menino de doze anos que nunca foi o artilheiro da rua, dizem as más línguas que só brinca por ser o dono da bola.

Menino criado por vó e todos os mimos que uma senhora mineira pode dar ao neto caçula. Sua mãe de uma simpatia superprotetora faz suas vontades e a principal delas é apoiar sua paixão. Vidrado em jogos de vídeo game e computador. “Antes na frente do computador que o dia inteiro do que na rua”, argumenta ela com a avó que não se conforma com o menino que não pega um Sol.

Com dez já havia montado o próprio website. Publica semanalmente tutoriais e dicas de jogos para os amigos virtuais. Com um bom HD é rei. Vaidoso. Toma banho quente faça o tempo que for, leva horas para se arrumar. Um quilo de gel no cabelo milimetricamente arrepiado é pouco. No fundo ele sabe que é bonito e que com quinze será galã nos corredores da escola.

Thiago mudou de escola no inicio do ano, antes estudava em uma particular no fim de sua rua, agora se desloca todos os dias até o centro do município para uma das maiores escolas públicas da região. Não foi fácil conseguir essa vaga, mas também não estava nada fácil arcar com os gastos de mensalidade e material escolar.

Sai de casa atrasado, todos os dias. Entra às 13h, começa a se arrumar às 10h, sai de casa às 12h45m sem almoçar. Segundo a avó come gel. Corre para atravessar a passarela. Sobe sem ar no ônibus que deu sinal enquanto descia as rampas verdes. Os cartões magnéticos que substituem os passes escolares de papel são mais eficientes, mas carregam com eles o mesmo problema de qualquer item de escola pública demora a chegar e quando vêm nem todos recebem.

A carteirinha de Thiago ainda não estava pronta, circula pelos ônibus da cidade com o cartão de uma amiga/admiradora que mora perto da escola. Por alguma maldade do destino o cartão não quis liberar a roleta e coração acelerado denunciava o desespero do menino que um dia já foi coroinha em sua paróquia.

O ônibus em movimento e o motorista perguntando o que havia acontecido. Conseguiu argumentar quanto ao problema técnico e convencer o velho senhor a deixá-lo sentar na frente e aguardar um pouco antes de tentar outra vez. Jogou a carteirinha de Isabela na mochila, passou a mão na testa para enxugar o suor, arrumou mais uma vez o cabelo no retrovisor do frescão da empresa Vila Rica.

Ao ouvir mais uma vez a voz do motorista sentiu um calafrio, ele pedia para ver a carteirinha. “Poh, eu joguei na mochila e não to achando…”, diz enquanto olha pela janela e faz movimentos que não verdade o presenteiam com alguns minutos a mais, “Eu não to achando mesmo. Quer saber, vou descer aqui, para, por favor?”, encerra a conversa com cara de menor abandonado, era craque em fazer cara de piedade, sempre funcionava com as mulheres de sua casa.

Desceu no ponto certo, em frente à escola. Sentiu o prazer de sua primeira atividade ilícita. A noite contaria, com pose, sua história para o pai, que riria com olhos de amor para o filho.

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